Arte e Política: Rua, Grupo e Terrorismo Poético

 

Não mexe comigo

que eu não ando só.

Paulo César Pinheiro

 

Por Onde Vamos? (Manifeste-se)

Este artigo passeia pelos limiares da primeira pessoa do singular (eu) e da primeira pessoa do plural (nós). Dado o momento histórico, se torna impossível desviar da possibilidade latente das articulações em grupo, em que só é possível pensar em insegurança, rotas de fuga e subversões cotidianas. O espaço coletivo é espaço composto de pessoas múltiplas, múltiplas pessoas. Não indivíduos, somos dividendos, prontos a dividirmos com os outros, pelos outros, para os outros.

Utilizaremos este texto para falar para além de nossas vivências em performance. Através da variável constante que toda pessoa pode ser, ressaltamos situações inusitadas (quiçá artísticas) para uma conversa frente ao mar de caos, corrupção e lama-mariana (referência à catástrofe de Mariana, Minas Gerais, Brasil, em 2015) a que estamos submetidas. As situações transbordam os limites móveis entre arte e política, tomam de assalto as ruas. Em bandos, (des)organizados de forma livre, coletivizam-se sensações para o fortalecimento na rua. A rua, dita pública, deve ser ocupada, habitada. E a política de Estado deve ser questionada, sobretudo desestruturada.

Partimos para/da rua. Depois de fazer algumas ações sem nem as nomear “performance”, Mariana Brites entrou para o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos [1]. Esse Corpos é corpo – e todas as suas significações – e se aprofunda na rua. Corpo nunca é um um só. Ele traz em si diversas questões. Pressupõe-se toda vivência/experiência diferenciada em cada corpo citado, falado, tocado. Eu, Mariana Brites, agora gorda, latina, não branca, lésbica, faminta e constantemente ouvinte do barulho silencioso de escrever, e o Corpos Informáticos bando, alcateia, cambada. Nós, agora: mist@s, miscigenad@s, LGBTQIA+ e constantemente tramando o silêncio barulhento da invasão.

O corpo se reconhece, constrói e destrói no com-tato (sic). Corpo pronto por acaso para o acaso, se vê lentamente nas noções fluidas de performance. O corpo na rua, ao se desencouraçar e gritar-se em toda singularidade/pluralidade do momento, se sente potência do desvio na rua. Aqui e agora. Agora e aqui. Sendo. Reinventando. Corpo que ama e acontece. Corpo a corpo. Aqui e agora, já e cá, cajá, jaca: o corpo a corpo no corpo da cidade, no corpo do planeta em um corpo muito maior que não tem fim: cosmos. É na rua que o corpo é atacado. O corpo se defende, resiste, re-existe (FIADEIRO; EUGÊNIO, 2013).

Depois de muita fumaça de bomba de gás lacrimogênio e de gás de efeito moral, volta para a rua, ainda cheirando a vinagre, refeito, absorvido de outras sensações. Fortalece-se. O corpo ama ataques e ataca tal qual, re-volta em estranheza. Move-cria-pensa novos planos de fuga e estratégias de ocupação da cidade. Ocupa a rua pela sinceridade do corpo movido, sentido, afetado. Sei que nos movemos diferentemente: temos todo o cérebro decomposto na pele, olhos nos pés e boca no cu. A performance pode ser aquela poeira no cartucho que impede que o jogo continue. Ela desvia as normas criando outras.

Performance é política. Vamos falar de performances, então, que não pedem autorização de espaços públicos para acontecer. Reivindicam poeticamente o livre direito de expressão e ocupação urbana. A performance deixa de ser. Dissolve. Se potencializa em ação, doideira, fuleragem [2]. Insiste, grita, hackeia espaços do status quo. Mas não é preciso só performance, a própria existência resiste. Aqui, por dentro, as noções identitárias mesclam-se, dançam as incertezas constantes de quantas somos.

 

Quant@s És?

Cada hora na rua, somos uma ameaça desconhecida. Que seja de livre trânsito seu fluxo, geração espontânea de tantos eus e nós. Juntas identidades marginais atiçadas e aguçadas contra a máquina de Estado. Motor sensível ligado, escrevemos nas encruzilhadas histórias de ações. Recontando a história da história. Vivendo o prazer do entre, na possibilidade múltipla de cicatrizar nossas feridas históricas ainda abertas. Constantemente re-abertas.

A rua está dada em teoria: pública. A rua é da polícia, sempre foi. As praças sempre foram da polícia: lugar vigiado, assepsia. A rua clama por ocupação. Performances se infiltram subitamente, tomam conta e depois se evadem. A polícia espreita, mas somos muit@s. O espaço permanece modificado e pulsante.

Para recontar o recorte disforme a que nos propusemos iremos começar pelo fim, onde estamos. As ações das quais falamos neste artigo são por nós consideradas em relação à definição de Hakim Bey, atos de terrorismo poético, bombas-relógio sob símbolos, desobediência civil como arte, beiradas políticas artísticas desobedientes e incabíveis. Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um ato consciente por uma vida deliberadamente mais bela: este pode ser o Terrorismo Poético definitivo. Os Terroristas-Poéticos comportam-se como um trapaceiro totalmente confiante cujo objetivo não é dinheiro, mas TRANSFORMAÇÃO. (BEY, 2003)

Os atos de terrorismo poético entrelaçam-se na estrutura social e política, criando desvios. Espaços de estranheza e dúvidas.

 

2016, Quinze de Maio.

Em maio de 2016 foi instalado, no Distrito Federal, um alambrado que dividia a Esplanada dos Ministérios em duas. A estranheza passeou por tudo, ridículo no ar. A grade foi construída com o intuito de separar manifestantes contra o golpe de políticos corruptos para impedir o governo, eleito por maioria, da presidenta Dilma Rousseff, e os apoiadores do golpe. Do lado direito, a igreja; do lado esquerdo, o teatro.

O muro simboliza o escancaramento do que já é nítido há muito tempo. Desde que habitamos Brasília nunca havíamos visto divisão de tão grande impacto: aquelas linhas separam muito mais que a Esplanada, separam mundos, Brasis, separam o povo dos exploradores, golpistas, enganadores e apoiadores da corrupção, do fim dos privilégios sociais alcançados nos últimos anos. Separam e criminalizam o povo contra o golpe com bombas de gás e balas de borracha.

Em meio ao caos político em que estamos, como conduzir uma aula sobre performance, arte e política? Em combinado acordo, no dia 15 de abril de 2016, fomos até o alambrado com @s alun@s da Universidade de Brasília. Ideia integrada com o movimento Semanas Doídas, do Departamento de Artes Visuais: atividade #NaoVaiTerGolpe. Estávamos tod@s colorid@s, espalhafatos@s munid@s de um algodão doce gigante, algumas birutas gigantes (de quatro a sete metros) e cartazes como “reforço escolar” e “64 nunca mais”.

A aula se dissolve em situação de rua, o grupo de alun@s se torna bando e as ações compõem uma variância do cotidiano “usual”. Nossa presença aterroriza, não cabe nas caixinhas de padrão que sobraram para encaixar pessoas desviantes e desviadas. Em dança constante, fomos caminhando da Universidade de Brasília até a Esplanada (quase 5 Km). A Esplanada, já fechada para trânsito de carros particulares e transporte público, isolada, cercada de militares sobre/sob o muro. Um muro cercado de dois muros menores. Cada muro um murro na boca do estômago, um sabor meio doce e meio podre na boca daqueles que sentem, rasgando, o golpe chegar. Queríamos chegar ao muro, encará-lo, sentíamos o peso presente nessa caminhada-manifesto. O muro não era o único impedimento. Assim que nos aproximamos da Esplanada fomos revistad@s brutalmente por um Batalhão de Operações Especiais – BOPE. Essa violência não pontual e extremamente simbólica marcou nossa entrada na Esplanada. Circo montado.

Nós nos deparamos com o muro e, lá, mais um impedimento: “não pode ficar muito perto”. Nós nos dividimos e começamos a lançar birutas de um lado para o outro do muro, muitas birutas, tantos nós, nós somos a biruta. O muro investe na divisão, mas tem charme de rede. A barreira também é disposta à brincadeira, à fronteira: é uma delícia. O terrorismo poético modifica, recria, impregna de sensações os lugares. Crava histórias que incomodam.

A princípio, e mesmo depois de vivida a experiência, que diferença faz dizer sim ou não para a nomenclatura “arte”? Esse tipo de ação não se categoriza. Não está à procura de salões ou de prêmios de arte. Subitamente invade e questiona através da ludicidade e do potencial (terrorista) do próprio grupo. Nessa ação não existe um jogo de disputa, não existe ordem no caos, não existem times adversários. Tampouco existe um plano a ser seguido à risca, a ação nasce do caos e se engendra no choque entre rua e pessoalidades. A ação nos remete a uma brincadeira que desdobra toda opressão gerada pelo muro, ressignifica-o. Afeta mais do que a nós mesmos, provoca nos outros (que observam, comentam e compõem) uma estranheza que desde então só vemos ampliar-se. Na internet, em menos de 24 horas, a foto 2 teve mais de quatro mil visualizações e três mil compartilhamentos. A rede amplia o fato, alastra o rastro do vírus poético, comunica.

Por que o muro deve ser somente para separar? Como esse ato de desobediência civil repercute na esfera micropolítica dos participantes? D@s alun@s? Esse ato acontece em decorrência de uma organização e decisão horizontalizada da/na sala de aula. A aula se expande, corre para fora da Universidade, grita e acontece: mani-festa. Nas ruas, re-volta as noções de Universidade: arte-denúncia, aula-prática, afeto gerado, corpos em movimento: resistência poética. Ação cotidiana como aprendizado marcado na pele, nas vivências, quiçá arte contemporânea.

 

Fotos 1 e 2: Corpos Informáticos. Brasília, Brasil, 2016

 

Desvio Coletivo, Coletivo Desvio

Outra ação que nos mobilizou ao sugerir esse recorte sobre arte-política é intitulada “Máfia – Exposição Interativa”, e ocorreu em São Paulo, no dia 23 de abril de 2016, organizada pelo Desvio Coletivo [3], em frente ao Museu de Arte de São Paulo – MASP, na avenida Paulista. Foram expostas fotos e fichas que identificavam os políticos e seus crimes na rua e, durante duas horas, inúmeras foram as participações das pessoas com os atos de cuspir nas fotos. Priscila Toscano urinou e defecou sobre as fotos. O ato em si exterioriza a vontade de pessoas em retribuir o xingamento do deputado Jair Bolsonaro (RJ) no dia da votação na Câmara dos Deputados sobre o impedimento da presidenta Dilma e demonstra aversão ao atual governo corrupto e indesejado pela maioria da população. Nas notícias pela internet, a maioria dos comentários à ação não legitimam esse acontecimento como arte. E a pergunta volta: arte ou vida, arte-vida? Estamos na iminência de expor nosso asco. Ocupa tudo!

 

Fotos 3 e 4: Desvio Coletivo (Divulgação). São Paulo, Brasil, 2016

 

Performances, ações cotidianas extrapolam, se posicionam e questionam, sobretudo o próprio lugar de produção artística que não pode ser alheia aos fatos. O mais importante dessas ações não é o status de arte, mas sua eficácia em denunciar golpes e outras ações de governos.

Priscila Toscano, integrante do Desvio Coletivo, após a ação “Máfia – Exposição Interativa” chegou a receber ameaças por telefone, por redes sociais, mas também havia policiais diante de sua residência; seu endereço foi divulgado na internet! Em uma primeira medida, o acesso à página do Coletivo ficou vetado, funcionando como medida protetiva para os envolvidos. Vale relembrar que a ação teve participação de muitas pessoas de passagem pela avenida. Estas compactuaram com a ação proposta. Terrorismo poético compactuado: sentimento exposto. Esse gesto e suas significações caracterizam o ato de terrorismo poético ao não se posicionar enquanto arte, provocar tremores na situação política nacional e “vandalizar o que deve ser destruído”.

 

Fotos 5 e 6: Desvio Coletivo (Divulgação). São Paulo, Brasil, 2016

 

Em resposta a uma entrevista, Toscano diz:

 

É o meu trabalho. Eu sou performance. Eu sei da minha condição enquanto artista e ativista e este não é o momento de recuar. É o momento de manter minha convicção política e artística. Não vou me calar diante de ameaças criminosas.

 

Os ataques e perseguições feitas a ela e ao Desvio Coletivo reiteram a potência política da ação. Explicitamente, frente à performance, as pessoas se posicionam, compõem a ação a partir da iteração [4]. Diferentemente do circuito mercadológico de arte, no terrorismo poético, nos atos, o “objetivo não é monetário, mas a transformação”, criação de uma reflexão acerca da construção simbólica construída

 

OBS:Cênicos

Nos distanciamos um pouco da história do golpe em 2016 ao revisitar uma ação feita em 2010, pelo coletivo OBS:Cênicos [5], em Brasília. O grupo ocupou a Esplanada dos Ministérios durante o primeiro jogo da Copa do Mundo de 2010. Cerca de dez pessoas jogavam pelada (expressão popular para jogo de futebol) pelad@s, utilizando máscaras de políticos. A trupe invadiu espaços nobres e simbólicos da Esplanada como: a Praça do Três Poderes, o Museu Nacional e o gramado em frente ao Congresso. As ruas estavam completamente ermas, uma estranha fumaça preta aparecia no horizonte logo atrás do congresso, mas ninguém ficaria longe das telas para investigar tal estranheza. A polícia espreita e prende.

A cidade virou fantasma e nós, clandestinamente, cúmplices do silêncio. Jogando pelada, pelad@s fomos pres@s. A rua mostra que crime e arte podem caminhar juntas e Hakim Bey afirma isso em seu livro Caos – Terrorismo Poético & Outros Crimes Exemplares e na citação acima.

A rua, a arte e o crime transam em nós. E nós, artistas e criminosos, assinamos termos, papéis, registros do acontecido. Nós por nós: 48 horas de serviço comunitário em hospital público desumanizado. OBS:cênicos se tornou o nome desse grupo após sermos enquadrados como indivíduos de periculosidade para a sociedade, no artigo 233 – Ato Obsceno, conhecido também como Ato Libidinoso ou Crime Vago. Nesse artigo lê-se, ainda, que são enquadradas pessoas e atos que ofendem o pudor público, objetivamente, considerando-se o sentimento comum vigente no meio social. Esses atos são classificados pelo que fere à moral do Estado.

Quem é o Estado? Como incitar a rua se nem ao menos temos direito a ela? A tipificação desse crime é vaga, filhote do aparelho de censura do Regime Militar. Censura “a gente tá tendo por aqui” (Rede Golpe). Diversos materiais apontam o desuso dessa lei e, mesmo assim, fomos dragad@s e censurad@s por ela. Em um termo, nos comprometíamos a não cometer nenhum ato “desses” no período de cinco anos. Mal sabem as polícias que, dentro desses parâmetros, nossas próprias existências são todos os dias crimes. Assinamos e continuamos ocupando a rua, destruindo símbolos da Copa, fazendo performance e ultrajando a suposta democracia do país. De acordo com Paulo Queiroz, advogado, a lei é “francamente inconstitucional, por violar tanto a liberdade de autodeterminação sexual quanto a de manifestação artística e cultural” e apresenta uma solução rápida, divertida e pacífica: “quando se percebe alguém praticando ato obsceno em lugar público, o melhor a fazer é, em princípio, evitar o local, desviar os olhos”.

 

Foto 7: Imagem sem autoria, feita pelo grupo

 

A censura persiste na rua, fiel e protegido espaço da família tradicional brasileira e, sobretudo, da polícia. A reflexão bombardeia o corpo através da experiência, explosões de sensações, sendo nunca interessante para a lei que esta aconteça em espaço público. Também não interessa que a arte mostre suas garras, grite na rua, arranhe e aponte questões políticas. Não somos artistas do “pão e circo”. Agora, na delegacia, nem somos artistas. Estamos entre o arquétipo da louca e da criminalidade.

 

Grupo, Bando, Trupe, Coletividades

As três experiências aqui expostas têm como fator comum que todas foram organizadas e feitas por coletivos de pessoas. O grupo, o corpo-coletivo, funciona como modo de resistência política. Aparelho político voltado para outras maneiras de organização: sensível, simbólica e político-ideológica. Nessas outras formas se esparramam sutilezas que transbordam brutalmente no grupo. Crescem, ações e pessoas, potencializando o coletivo.

O grupo é tecnologia antiga e nunca ultrapassada. Nele cabem desejos, exponenciais da potência individual. O corpo-coletivo também traz uma maior possibilidade e amplitude de ocupar a rua. Esse corpo se torna gigante e visível, mas, ao mesmo tempo, pode desmembrar-se em caso de algum impedimento do próprio espaço ou de ordens do Estado.

Voltando para o nosso referencial espacial, estamos em Brasília de largas avenidas, feitas para carros e não para pessoas, centro de decisões governamentais do país. A Esplanada carrega um cheiro de enxofre. Esta última não cabe somente a população brasiliense, reflete tanto o povo brasileiro quanto a corrupção nacional.

Terrorismo poético contra terrorismo de Estado. Não estamos falando de poderes iguais, falamos de maneiras diferentes de sentir os fatos. O terrorismo poético visa à reflexão e, por conseguinte, a mudança social. Assim, por vezes esse conceito pode estar engendrado na performance, na arte contemporânea. Mas esses atos poéticos e terroristas transcendem até mesmo a nomeação exclusiva da arte. É opinião viva, pulsante, que não se aguenta dentro da boca e precisa gritar. Na rua, é praga, erva comestível, planta alimentícia não convencional (PANC). Já o terrorismo de Estado é o que vivemos: genocídio das comunidades tradicionais, desmatamentos, desvalorização da cultura e dos reconhecimentos dos direitos humanos adquiridos desde a época da ditadura. O terrorismo do Estado é machista, branco e elitizado, escancarado e desmascarado, a cara do golpe, assim como seus envolvidos. É difícil para nós manter algum tipo de arte “neutra“, “imparcial”.

Terrorismo poético toma de assalto, ataca em bandos, ocupa prédios e pixa pelas ruas. O grupo compõe-se de nós em rede, trama. Arma, ama. Infecta, destrói. Joga glitter no carpete do congresso, rasga títulos de eleitores. Terrorismo poético é ação, não anúncio. Um caso de encanto nas superfícies sensíveis que tangenciam e separam. Arte e subversão, sobre-versão, outras versões, ou simplesmente verso.

Grupo, multidão, bando, cambada, trupe, comunidade, manada, seita, facção. Corpo variável, disforme, abjeto. Corpo d’arte como crime. Agora, cada vez mais afundad@s pelo governo ilegítimo, sofremos com o corte de verbas do Ministério da Cultura – MiNC, que quase se tornou uma secretária. Sofremos, artistas, censura da cultura. Vetad@s, mas não imóveis. Ocupar e resistir, a rua, o museu, o prédio nobre da cena cultural. Ocupar nossos corpos de ideias impensadas. Desviar o tédio e as únicas possibilidades apresentadas: reinventar, criar, questionar. Com o corpo parar o corpo, com o corpo da cultura: a dança, a música e o cinema. Recontar no corpo a história da ocupação. A ocupação, sobretudo a artística, é forma de terrorismo poético.

 

Foto 8: Corpos Informáticos. Brasília, Brasil, 2015. Fotografia de Mateus de Carvalho Costa

 

 

NOTAS

[1] Corpos Informáticos é um grupo de pesquisa em arte contemporânea com ênfase em performance, composição urbana – conceito que preferimos àquele que costuma-se denominar “intervenção urbana” –, videoarte, webarte. Este grupo formou-se na Universidade de Brasília em 1992 com professores e alunos de Artes Visuais, Artes Cênicas, Arquitetura e Comunicação. São atualmente membros do Corpos Informáticos: Ayla Gresta (arquiteta); Bia Medeiros (coordenadora, doutora em Arte e Filosofia); Diego Azambuja (ator, doutorando em Arte); João Stoppa (graduando em Artes Visuais); Mariana Brites (atriz, mestranda em Arte); Maria Eugênia Matricardi (performer, mestranda em Arte); Mateus de Carvalho Costa (graduando em Artes Visuais); Matheus Opa (graduando em Artes Visuais); Natasha de Albuquerque (graduando em Artes Visuais); e Rômulo Barros (graduando em Artes Visuais). Ver em: <http://www.corpos.org>; <http://corpos.blogspot.com.br>; <http://www.performancecorpopolitica.net>; <https://www.facebook.com/CorposInformaticos/>.

[2] “A fuleragem não é obra de arte nem acontecimento, é ocasião (oca grande), acaso e improviso. Ela é mixuruca e não efêmera, renuncia à obra, ao espaço in situ e mente. Escreve livros, expõe em galeria e até ganha editais. A fuleragem se dá por parasitagem física ou virtual, com participação iterativa do espectador que dança, canta, pula corda ou se excita na frente da enceradeira vermelha. Ela critica a escrita, a linguagem e mente te convidando à leitura […].” Ver em: AQUINO, Fernando; MEDEIROS, Maria Beatriz de, 2010, p. 28.

[3] O Desvio Coletivo é uma rede de criação artística, que atua na zona de fronteira entre teatro, performance e intervenção urbana. A partir de espetáculos e intervenções cênicas em diferentes espaços urbanos, o Coletivo pretende criar ilhas de desordem efêmeras de natureza poética e crítica. Dirigido por Marcos Bulhões e Priscila Toscano, integram seu núcleo artístico Fernanda Perez, Leandro Brasilio, Marie Auip, Rodrigo Severo e Viny Psoa.

[4] Deleuze e Guattari, assim como Derrida, se referem ao conceito de “iteração”: conceito mais amplo e aberto do que o de “interação”. Na interação, caminho por caminhos preestabelecidos pelos conceituadores do projeto, da obra, da performance. Videogames são interativos: os interatores percorrem caminhos previstos, navegam, mas não criam, não modificam, não são participantes, nem parte da proposta. A participação iterativa é co-laborativa, co-labor-ativa, prevê a participação ativa do ex-espectador, tornado iterator. Há possibilidade de modificação da proposta artística pelo iterator. Arte que vai para a rua, se distrai e caminha como os errantes, aceita a iteração. Esta não tem percurso nem roteiro. Se o tiver o perde. Aberta ao público capaz de palavra, ação, particip-ação, iteração.

[5] O Grupo Obs:Cênicos prefere manter seu membros incógnitos.

 

BIBLIOGRAFIA

AQUINO, Fernando; MEDEIROS, Maria Beatriz de (Orgs.). Corpos informáticos: Performance corpo, política. Brasília: PPG-Arte/UnB, 2011.

ARCANJO, Miguel. “Artistas Cospem em Rosto de Políticos no MASP”. 2016. Ver em: <http://blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br/2016/04/23/artistas-cospem-em-rostos-de-politicos-no-masp/>. Acesso em: 07 de maio de 2016.

BEY, Hakim. Caos – Terrorismo Poético & Outros Crimes Exemplares. Trad. de Renato Resende e Patricia Decia. São Paulo: Conrad, 2003.

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix. Mil Platôs 1: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: 34, 1995.

FIADEIRO, João; EUGÊNIO, Fernanda. “O Encontro é uma Ferida”. 2013. Ver em: <http://and-lab.org/wp-content/uploads/2013/08/O-encontro-é-uma-ferida-_-final.pdf>. Acesso em: 30 de abril de 2016.

 

FONTES DAS FOTOS

Desvio Coletivo. “Máfia – Exposição Interativa”. 2016. Ver em: <https://vimeo.com/164945322>. Acesso em: 10 maio 2016.

OBS:Cênicos. “Pelada Pelada”. 2010. Ver em: <https://vimeo.com/93738615>. Acesso em: 27 abr. 2016.

 

 

Mariana Brites _ Mestranda em Poéticas Contemporâneas pela Universidade de Brasília – UnB, graduada em Artes Cênicas também pela UnB. Compõe o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos desde 2010. Desenvolve performances individuais e coletivas na rua, além de desenvolver pesquisa acerca de registros poéticos para ações efêmeras. Ver em: <https://vimeo.com/marianabrites>.

 

Maria Beatriz de Medeiros _ Doutora em Arte e Ciências da Arte pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), pós-doutora em Filosofia no Collège International de Philosophie, Paris. Professora associada IV da Universidade de Brasília. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos desde 1992. Ver em: <http://corpos.blogspot.com.br>; <http://performancecorpopolitica.net>; <http://www.corpos.org>; <http://grafiasdebiamedeiros.blogspot.com.br>.

 

PARA CITAR ESTE TEXTO

BRITES, Mariana; MEDEIROS, Maria Beatriz de. “Arte e Política: Rua, Grupo e Terrorismo Poético”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 17, jan. 2017. ISSN: 2316-8102.

 

Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy

Edição de Da Mata

© 2017 eRevista Performatus e as autoras

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